Ladrões de bicicleta

O filme faz parte da pesquisa cinematográfica do neorealismo italiano, um movimento cultural que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial e que buscou retratar a realidade política e econômica daquela época. A idéia é apresentar a realidade e não representa-la . Para garantir esta fidelidade as locações de filmagem são realistas, utiliza-se muito a cidade como cenário e os atores são iniciantes ou sem nenhuma experiência prévia.
Ladrões de bicicleta é a história do homem recém-empregado que tem seu instrumento de trabalho — a bicicleta — roubado, e assim ameaçado de perder o emprego, Victorio de Sica emoldura um quadro da classe trabalhadora urbana de então, assombrada pelo desemprego.
O filme apesar de um enredo simples, a busca de uma bicicleta roubada por um pai e o filho que o acompanha nesta jornada, ganha ao longo da narrativa uma dramaticidade impressionante.
Vemos na relação pai e filho, uma intensidade crescente num conflito moral.
Ladrões de bicicleta é uma conversa sobre a opção do roubo frente a miséria.
Sem o seu instrumento de trabalho ( a bicicleta) o pai vê ameaçada a sua  dignidade e esperança de cuidar da família, o menino tem dificuldade de compreender a complexidade da situação mas segue o pai em admiração e dúvidas sobre as suas escolhas.
A fotografia do filme é primorosa ao capturar estes momentos delicados em gestos e olhares do vínculo pai e filho.


São inúmeras as situações que revelam a tenacidade do menino :
  • o pai impõe um ritmo de caminhada na perseguição que leva o menino a exaustão  e por vezes a queda.
  • nas feiras mesmo tentando ajudar na busca os adultos rechaçam a sua presença
  • ele tem dificuldade de compreender porque não comeram na paróquia, ou porque não pode parar pra fazer xixi. Ao questionar o pai sobre o ritmo da busca ele lhe dá um tapa.
É somente ao ver a mágoa do menino com a punição por questionar e ao presenciar um afogamento de outra criança que ele por instantes pensa ser seu filho é que vemos o ritmo da relação passar a ser mais importante que a busca da bicicleta.
No almoço o pai expressa esta escala de valores, não ter dinheiro é um problema mas a vida do menino é mais importante.
Ele consegue finalmente conversar e explicar um pouco da gravidade da situação e do porque é importante este momento, pois a bicicleta pode ser desmontada e vendida rapidamente nas diversas feiras da cidade.
Vemos aqui que a relação pai e filho ganha um fortalecimento e eles partem para um enfrentamento maior, encontram o ladrão mas quando tentam forçar este a falar ele tem um ataque epiléptico e a proteção dos moradores do seu bairro. Apesar do menino buscar reforço da polícia a situação fica encerrada numa perda inevitável.


Em desespero o pai tenta afastar o menino pedindo para que vá para casa de bonde e resolve roubar uma bicicleta, ele também se transformando em ladrão : é daqui que vem o título no plural - ladrões.
O filho não vai embora e assisti a cena dele sendo capturado no roubo e na sua presença o dono da bicicleta acaba desistindo da queixa policial.
Neste momento vemos uma inversão no papel de cuidado : é o filho que dá a mão para o pai, num gesto de maturidade.
A jornada dura fez com que eles se aproximassem agora de modo mais profundo.
É claro que o filme é também uma crítica social do momento revelando várias situações da desigualdade social e de falta de solidariedade, mas a delicadeza desta relação amorosa de pai e filho é muito comovente e revela uma dimensão mais imaterial e sublime da história.



Ladrões de Bicicletas (Ladri Di Biciclette) – Itália, 1948
Direção: Vittorio De Sica
Roteiro: Cesare Zavattini, Oreste Biancoli, Suso d’Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Geraldo Guerrieri (baseado em romance de Luigi Bartolini)
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Elena Altierri, Carlo Jachino
Duração: 93 min.

 

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