Robert Bresson : Pickpocket

 Pickpocket - O batedor de carteiras estreou em 1959 . Neste filme vemos um profundo estudo dos gestos , uma atenção aos detalhes que em planos fechados são levados a maestria. Gestos que põe a prova a moralidade do mundo, pois na arte de roubar está também a pergunta para além da técnica que pode ser aprimorada, é esta a melhor escolha para a vida ?

Michel, o ladrão compulsivo que protagoniza o filme não possui um dentro e fora, tudo é permissivo sem limites traçados. Percebemos que seu quarto é uma porta entreaberta e ele permanece na primeira visita a sua mãe no decorrer do filme, também neste entre : sem conseguir  entrar e enfrentar a responsabilidade do seu primeiro roubo.

Em 1960 Bresson dá uma entrevista sobre o filme onde fala sobre o mistério e força do hábito de roubar e de sua escolha de não interpretação dramática dos atores, preferindo o uso de modelos sem experiência teatral em seus filmes. Em entrevista para Godard ele explica: 

"O ator é um ator. Você tem diante de si um ator. E que opera uma projeção. Este é o seu movimento: ele se projeta para fora. Enquanto que seu personagem não-ator deve ser completamente fechado, como um vaso com uma tampa. Fechado. E isso, o ator não pode fazer, ou, se ele o faz, nesse momento, ele não é mais nada. Porque há atores que tentam, sim. Mas quando o ator se simplifica, ele é ainda mais falso do que quando ele é ator, quando ele atua. Pois nós não somos simples. Somos extremamente complexos. E é essa complexidade que você encontra no personagem não-ator. Nós somos complexos e o que o ator projeta não é complexo. "

A QUESTÃO – entrevista com Robert Bresson por Jean-Luc Godard e Michel Delahaye: publicado originalmente na revista Cahiers du Cinéma, número 178, 1966, França. – traduzido por Chico Toledo. 


“Nada de atores.

(Nada de direção de atores.)

Nada de papéis.
(Nada de estudo de papéis.)
Nada de encenação.
Mas a utilização de modelos, encontrados na vida. SER (modelos) em vez de PARECER (atores)”

Em suas Notas sobre o Cinematógrafo,  Bresson delimita um tipo de filme que só pode ser realizado e levado à perfeição por ele, seu tratamento ético/poético revela um trabalho consciente e preciso na criação cinematográfica. 

 A utilização do som no cinema de Bresson também tem uma gramática particular. 

O cineasta evita o uso da música de fundo, utilizando- a em momentos muito específico. Ele dá importância  aos silêncios chagando ao constrangimento e muitas vezes utiliza de sons do ambiente para nos informar da existência de um fora de quadro, de um acontecer invisível. 

Em Pickpocket o ruído dos cavalos em plena competição que se escuta enquanto Michel realiza o seu roubo no hipódromo; sua intensidade crescente sugere a subtração: não vemos as mãos do ladrão, mas sabemos, pelo ruído, o que está acontecendo; e quando o ruído se distancia, já aconteceu. 

“Nada de música de acompanhamento, de apoio ou de reforço. 

Nada de música de modo algum.

É preciso que os ruídos se tornem música”

Notas sobre o cinematógrafo. 


“Não filmar para ilustrar uma tese, nem para mostrar homens e mulheres limitados a seus aspecto exterior, mas para descobrir a matéria da qual eles são feitos. Atingir esse “coração do coração” que não se deixa captar nem pela poesia, nem pela filosofia, nem pela dramaturgia”

Notas sobre o cinematógrafo. 

Paul Schrader, na sua obra :Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer, afirma que o estilo transcendental de Bresson reside na forma como ele expõe o dia-a-dia como uma farsa, e afirma: 

"The realistic surface is just that – surface – and the raw material taken from life is the raw material of the Transcendent" (Schrader, 1972). 

A matéria do real está lá para ser vista como simples matéria, onde se pode já vislumbrar uma necessidade de ir além dela. O cineasta busca que sua câmera seja janela para a transcendência; deseja desimpedir, tornar transparente, mas não consegue sem antes criar a opacidade necessária para que essa transcendência se faça presente.

Esta austeridade estilística, faz do cineasta o que Sontag denominou de  "mestre da arte reflexiva". Uma arte  que pede distanciamento em vez de empatia, para "disciplinar as emoções ao mesmo tempo que as exalta".

"Bresson pretende, também, a distância. Mas o seu objectivo, imagino eu, não é esfriar as emoções quentes para que a inteligência prevaleça. A distância emocional típica dos filmes de Bresson parece existir por uma razão diferente: porque toda a identificação com as personagens é uma profunda impertinência – uma afronta ao mistério que é a acção humana e o coração humano" Contra a Interpretação. Susan Sontag

O drama em Bresson nos leva a entender um conflito interior, uma luta do protagonista consigo mesmo.Sua interioridade se torna visível e no caso de Michel vemos que somente numa relação amorosa ele consegue perceber sua dificuldade de sair do vício de roubar. 

É somente no encontro e na entrega por este amor que entendemos nossas fraquezas íntimas e iniciamos um caminho para redimi-las. Sob este olhar amoroso encontramos força para recomeçar.





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