Adeus meninos

Lançado em 1987, Adeus Meninos foi o primeiro filme de Louis Malle na sua volta à França, de onde havia saído mais de dez anos antes para os Estados Unidos.Ao longo de sua carreira realizou trinta longa metragens. O filme ganhou o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza 

Esta análise está organizada em três momentos meditativos:

  1. o roteiro baseado na autobiografia do diretor e seu tom confessional
  2.  a questão do colaboracionismo e traição : Vichy
  3. Quem encontra um amigo, encontra um tesouro” : o tema da amizade.                              
Louis Malle nasceu em outubro de 1932. Durante o inverno francês de  1943/1944, estava portanto com 11 anos, exatamente a idade de seu alter-ego no filme, Julien QuentinExatamente como Julien, Malle, nascido numa família de diplomata, frequentou na infância um colégio interno mantido por padres católicos, nos arredores de Paris, na região de Fontainebleau. 

Padres do colégio em que Malle estudou ajudaram a Resistência francesa e deram guarida a garotos judeus – exatamente como no filme, um momento de divisão política na França pela ocupação nazista. Ao contrário do que muita gente faria, Malle não pinta Julien Quentin, seu alter-ego, como um garoto perfeito. Julien é inteligente, lê muito, tira boas notas, tem capacidade de liderança entre seus colegas de classe, mas é um tanto mimado, pela excessiva proteção de sua mãe.


 Aos poucos ele se torna o melhor amigo de Jean Bonnett, um introvertido colega de classe, que no decorrer da história descobrimos que é judeu e está no colégio com uma identidade falsa, a forma  encontrada para ser protegido da Gestapo. O cineasta explica, no livro com o roteiro do filme, o quanto esta experiência de vida foi perturbadora e o tempo necessário para maturar sua coragem de trazer a público: 

"Adeus meninos foi inspirado na lembrança mais dramática da minha infância....Um dos meus colegas que havia chegado no começo do ano, me intrigava muito. Ele era diferente, discreto. Comecei a conhecê-lo , a amá-lo quando certa manhã nosso mundo desabou. Esta manhã de 1944 praticamente decidiu minha vocação de cineasta. É a minha fidelidade, minha referência. Deveria tê-la feito a matéria do meu primeiro filme, mas hesitava, esperava. O tempo passou , a lembrança se tornou mais aguda, mais presente"

O  questão do colaboracionismo já existia na filmografia de Louis Malle no polêmico filme: Lacombe Lucien, e ela reaparece como um panorama de fundo neste filme.



Segundo Wikipédia, Síndrome Vichy é uma expressão criada pelo historiador francês
 Henry Rousso e representa:
 “a dificuldade, durante décadas, de se admitir o que [de] fato ocorrerá durante a guerra, 
e o desejo irresistível de bloquear a memória, ou reconstruí-la de maneira a não corroer
 os frágeis elos da sociedade do pós-guerra”. 

No filme a entrega dos meninos judeus é feita pelo personagem Joseph;
 um rapazinho problemático que trabalha na cozinha do educandário. Sofre com a sua condição inferior à dos garotos ricos. Ele rouba alimentos da escola e troca cigarros e selos por
 iguarias com os alunos. 
Quando descobertos, compradores e vendedor são chamados à presença do superior, padre Jean , que lhes passa um bom sermão. Mas apenas Joseph é convidado a acertar suas contas e ir embora, fato que o deixa revoltado. Como vingança, o ajudante de cozinha entrega o superior do educandário à polícia nazista.

“Quem encontra um amigo, encontra um tesouro”, diz a Bíblia

A maior sutileza do filme é o delicado nascimento da amizade entre Julien e Jean. 
Temos idas e vindas da relação através de afinidades e desavenças. A caça ao tesouro que gera uma situação de insegurança e coragem apresenta um ótimo símbolo deste encontro. 
A maior riqueza que podemos ter é um amigo e a profundidade do sentimento dos meninos é o que mais comove.

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