Sono de inverno

 Este artigo está organizado em três partes: 

  • Uma breve apresentação do cineasta e de suas inspirações para o filme
  • Uma leitura simbólica de alguns elementos da trama
  • Uma interpretação pessoal do tema psicológico abordado nos diálogos  

Winter Sleep (Kış Uykusu) é um filme de 2014 do cineasta turco: Nuri Bilge Ceylan

O roteiro foi escrito por Nuri Bilge Ceylan com sua esposa, a atriz e escritora Ebru Ceylan. O filme tem como cenário um lugar muito particular na Anatólia, a Capadócia que é formada de rochas calcárias esculpidas pelo tempo em cavernas naturais. 

O roteiro do filme foi inspirado em dois contos do escritor russo Anton Tchekhov. 

O primeiro é "The wife" que fala sobre um burocrata que se retira para o campo na intenção de escrever sobre os problemas sociais da Rússia e se vê cercado de pessoas passando fome na vila. Sua mulher indiferente o critica por suas ações, já que este tenta realizar um comitê de ajuda aos pobres. A relação fria e conflituosa do casal é muito semelhante no filme entre Aydin o protagonista e Nihal, sua esposa.

O segundo conto reflete a relação entre irmãos - no filme entre Aydin e Necla. No conto de Tchekhov : "Excellente people" temos um advogado executivo de uma companhia de trens que é interessado por literatura, um homem elegante e entusiasmado e sua apática irmã. É dela que surge a conversa de "resistir ao mal" uma questão fundamental na filosofia de Tolstói, uma pessoa que por amizade, influenciou diretamente a escrita de Tchekhov. 

Existe no trabalho do escritor AntonTchekhov, uma crítica persistente aos intelectuais russos. Os homens intelectuais para o escritor são uma combinação de profunda decência com uma ridícula inabilidade de colocar seus princípios e ideais em ação, um homem devotado a beleza moral mas incapaz de fazer na sua vida privada qualquer coisa de útil, cheio de sonhos, afundando cada vez mais profundamente no pântano de sua existência, infeliz no amor e ineficiente no cotidiano, um bom homem mas que é incapaz de fazer o bem.

Vemos nesta descrição uma boa apresentação do protagonista Aydin, o significado do seu nome em turco é intelectual. Logo no início do filme ele se declara um rei no seu hotel mas isto parece afastar todos de qualquer convivência amistosa, ele parece sobrenadar à realidade que o cerca, sem assumir nenhum vínculo com as pessoas.

"Meu reino é pequeno. Mas ao menos… me sinto um rei "

O cineasta  Nuri Bilge Ceylan em entrevista declara que em seus filmes expressa esta preocupação :

"hábitos intelectuais são mais problemáticos especialmente quando a pessoa ganha muito dinheiro, ela sente que não precisa mais das outras pessoas.....Você ganhou ou direito de não ajudar os outros por ter ficado forte economicamente e não precisa ajudar mais ninguém "

É interessante este comentário pois os antigos senhores de terra (lordland) se sentiam responsáveis pelos seus súditos e vemos claramente no decorrer do filme que Aydin se exime de qualquer interesse sobre seus inquilinos, colocando seu empregado e os advogados como uma barreira de isolamento e indiferença.

A Capadócia é o cenário escolhido e uma fonte de pesquisa do também fotógrafo  Nuri Bilge Ceylan, é interessante perceber sua escolha pelo formato panorâmico ( pan = tudo à vista).

 A paisagem surge como este lugar que clama um passado comunitário em decadência, um território de costumes tradicionais/ religiosos de honra e dignidade que não são reconhecidos e compreendidos pelos moradores vindos da cidade: Istambul.


Do universo simbólico do filme gostaria de trazer três referências apresentadas :

A primeira é o nome da propriedade herdada de Aydin e que recebe o nome de Hotel Othello.
Ser um hotel e não uma casa já define um caráter transitório e pouco íntimo das relações.
O nome Othello é de uma peça de Shakespeare que fala sobre um grande e admirado guerreiro que mata sua esposa por ciúmes. A arte teatral, ocupação e paixão do protagonista traz uma analogia direta a uma tragédia, a qual tem na fala de Desdêmona a esposa injustamente acusada uma apresentação da relação emocional do casal : 
“that death's unnatural that kills for loving,” 

A segunda fonte simbólica é o cavalo branco selvagem que representa um espírito de liberdade e determinação.
Aydin sai em busca de comprar o animal por conta de um hóspede que reclama da propaganda enganosa do seu site, onde se mostravam fotos de cavalos na propriedade.
Aydin e seu principal ajudante, Hidayet , um homem mais velho, visitam um comerciante de cavalos que promete encontrar um cavalo saudável, um animal ancestral, da raça anatólia. 
Em outro momento do filme vemos o animal ser laçado com sofrimento e depois preso em uma caverna escura. A questão é que o turista (um motoqueiro) resolve partir para seguir seu caminho de aventuras e vemos Aydin libertar o cavalo, logo após sua  longa discussão com a esposa.
A compra era pura aparência, para mostrar para o hóspede que ele não havia mentido ?
O gesto é um ato de arrependimento e generosidade ?

A terceira fonte simbólica tem a ver com a presença da escuridão  emoldurando a presença de Aydin. Em uma discussão com sua irmã sobre as esperanças  da família de que ele fosse um ator de sucesso ele resume : 
 "A montanha pariu um rato" uma síntese de que as expectativas sobre ele eram imensas e ele é este ser diminuto que se esconde no escuro. Em vários momentos da fotografia no filme Aydin é esta figura sombria, um contraste na paisagem branca do inverno.


Vemos a influência do "chiaroscuro" técnica para gerar profundidade utilizada na pintura de Rembrandt. Este mesmo contraste se dá com o espaço externo ( de pedra e neve) e o interior dos aposentos sempre repleto de sombras.
Este interior denso e pouco luminoso das personagens  centrais se apresenta também nas vestimentas, sempre em tons escuros e que contrastam muito com o costume colorido das vestes dos personagens nativos da região.


Nesta terceira parte da análise quero meditar um pouco sobre a grande riqueza do filme: os diálogos.São nestes momentos de grande densidade afetiva, que presenciamos mais claramente os ressentimentos que perpassam as relações familiares.

As experiências interiores não são unívocas, elas sempre tem uma pluralidade de significados conforme a situação e conforme a pessoa. Percebo no filme uma apresentação do problema da acídia, sendo vivida por três almas distintas e causando diferentes comportamentos e sofrimentos.
É preciso esclarecer o que entendo por acídia. São Tomás de Aquino a considera um vício oposto à alegria da caridade, uma espécie de tristeza espiritual, uma amargura paralisante e consequentemente um tédio no agir.
Como este vício se expressa em cada personagem : malícia, pusilamidade e rancor.

1) Necla a irmã de Aydin : 


Surge sempre de maneira insidiosa e usando uma linguagem maliciosa de críticas contundentes que levam Aydin a dizer: 
acho que você odeia a mim, não a meus artigos”
Sente-se infeliz com a separação do marido alcoólatra e não consegue realizar mais o seu trabalho como tradutora. Vaga pelas páginas de revistas e pelos aposentos do hotel reclamando da falta de cuidado da empregada mas ao mesmo tempo reconhecendo a desimportância do fato. Sua argumentação de "não recusa ao mal" é uma forma cética de enfrentamento das dificuldades em sua vida.

2) Aydin

Vive relacionamentos indiretos e evasivos onde é servido e/ou evitado. É interessante notar que a câmera o coloca sempre a espreita e em diálogos onde está de costas ou se relaciona com imagens espelhadas. Tem grande vaidade ao ler a carta de uma leitora sobre seu artigo no jornal local, mas sua esposa e amigo escutam os elogios como uma artimanha para conquistar uma doação financeira. Quando vai admoestar sua esposa sobre seu comitê de doações para as escolas locais, convida esta para que sente frente a frente numa poltrona, mas ela recusa. 


A única cena de encontro com um olhar sincero do filme para Aydin, se dá na relação com o menino que atirou a pedra no seu carro. 
Neste episódio de revolta do menino por ter perdido a televisão, em pagamento das dívidas de seu pai (um inquilino de Aydin), o diretor mostra uma imagem estilhaçada do rosto de Aydin.


O menino colérico, Ilyas, parece um espelhamento do próprio personagem : Aydim nasceu na região e relata ter tido uma infância difícil, ele volta agora indiferente às condições de vida dos moradores locais. A sua única preocupação é estética : o quanto seu inquilino transformou o jardim da casa alugada num depósito de quinquilharias, avalia isto como uma falta moral, um desmazelo imperdoável.
Vemos em Aydin uma pusilanimidade : uma fraqueza de decisão criticada constantemente no olhar do seu empregado Hidayet, pois este percebe que ele não quer assumir as responsabilidades que seu poder demandam, inclusive no cuidado básico da estrada que leva ao hotel, uma contradição apontada pelo seu amigo.

3) Nihal : a esposa

Ela apresenta suas queixas na discussão com o marido. Fala o quanto se sente uma parasita, vivendo à deriva numa vida sem liberdade e infeliz. Nihal  após o desabafo resolve  visitar a casa do Iman:Hamdi e levar para a família o dinheiro que seu marido deu para o conserto das escolas rurais. Uma soma de 10,000 lira, um valor equivalente a compra de uma casa na região, ela vê na doação que o marido fez uma ofensa à sua liberdade.
 Escolhi esta cena por ver neste momento uma crítica contundente que o irmão desempregado faz  para a benfeitora : é possível  comprar a dignidade de uma pessoa ?
Há aqui um questionamento sobre se a filantropia é a verdadeira caridade e revela o quanto os dois personagens estão vivendo o mesmo sentimento de iniquidade. 
Fica explícito que foi o rancor que levou Nihal a doação do dinheiro e o gesto é compreendido pelo irmão orgulhoso: Ismail, como mais uma prova de sua impotência no cuidado da sua família. Existem também preceitos islâmicos relativos à cultura do dinheiro que ela simplesmente desconhece.
O desespero de Nihal ao ver o dinheiro ser atirado ao fogo mostra sua filosofia materialista da realidade. 



O filme gera na impossibilidade de comunicação sincera entre os personagens,um clima movediço, vemos lentamente os personagens afundando depressivamente e há uma sensação nos diálogos de sufocamento. O desencontro tem raiz numa incapacidade de amor e alteridade.

No livro "Poetics of slow cinema" de Emre Çaglayam apresenta o tédio como a marca no filme de Ceylan; em entrevista o cineasta confirma esta escolha :

"The biggest decisions of our lives generally come right after the biggest boredoms. Boredom has the potential to put the people in the right mental state to be able to sense the hardest truths. As [German-Jewish philosopher] Walter Benjamin said: ‘If sleep is the apogee of physical relaxation, boredom is the apogee of mental relaxation. Boredom is the dream bird that hatches the egg of experience."









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