Conduzindo Miss Daisy


O filme de 1989 é dirigido por Bruce Beresford, adaptação de uma peça de teatral de Alfred Uhry, publicada em 1987 e que ganhou o "Pulitzer Prize" em 1987.


A peça foi baseada numa história real da avó judia de Alfred que viveu em Atlanta nos anos sessenta.O filme narra a relação desenvolvida ao longo de vinte e cinco anos entre uma professora aposentada e um motorista particular, dentro de um contexto de anti-semitismo e  
de preconceito racial no sul dos EUA.

Este artigo está organizado em três tópicos de análise :
  • as relações pessoais ou impessoais de trabalho 
  • a música como uma forma de descrição do tônus da personalidade
  • o envelhecimento e seus desafios numa sociedade urbana

A criação lenta e artesanal da relação pessoal entre os dois personagens centrais do filme pode ser descrita por este trecho de Julian Marias no livro : Mapa do mundo pessoal (p.116)

"Os criados e os senhores eram frequentemente muito próximos, confidentes, amigos em algumas ocasiões. Nos últimos tempos generalizou-se a interpretação negativa do serviço doméstico, de afirmação das diferenças sociais, a exploração. 
Não se viu  - não se quis ver o lado positivo "

 

    Julian Marias segue mostrando o contraste desta possibilidade pela convivência pessoal que engendra aprendizagens dos dois lados e a tendência no mundo urbano de serviços desencarnados e impessoais, que geram  estranhas comunidade de pessoas que na verdade se desconhecem, onde predomina o impessoal. 
Um exemplo explícito neste caso é o uso de aplicativos  atualmente para o mesmo serviço de transporte individual : o aplicativo Uber.

"O homem urbano do nosso tempo conhece inúmeros nomes de pessoas que nunca viu, ao passo que ignora os nomes daquelas que vê na rua, nos locais de trabalho,
 nos espetáculos"

O filme neste sentido nos traz uma certa estranheza com o tempo de uma cidade do interior, com a profusão de momentos de convivência comunitária que já nos parecem distantes. 
Esta localização temporal é feita com maestria por todo cenário e ambientação das casas e escritórios, pelo figurino e na formalidade das relações. O design de produção vai 
nos conduzindo na evolução do tempo apresentando as mudanças nos carros e 
nos utensílios domésticos.


Na entrevista sobre o processo de criação da música tema de Conduzindo Miss Daisy o compositor Hans Zimmer fala como através do passo do caminhar da personagem ele criou a música tema. Daisy em sua altivez e força de autonomia expressa uma presença energética.
É muito interessante notar o quanto a música pode revelar nosso modo de ser e
 nos colocar em relação com as características fundamentais da personalidade apresentada.


Um outro tema abordado pelo filme é o envelhecimento e as consequências
 nas relações de autonomia e cuidado.
A razão que dá tema ao filme é a contratação de um motorista particular,  pois a senhora Daisy, com 72 anos não consegue mais dirigir de forma segura. 
O motorista contratado, Hoke aos 60 anos declara ter negado um serviço fora da
 cidade para ficar perto de sua família e vemos no final do filme quando ele tem 85 anos 
que a neta está dirigindo para ele.
Existe também a presença de outra idosa Idella a cozinheira que morre no decorrer do filme.
As amigas de Daisy são outra fonte de presença e companhia e o filho é quem  faz a gestão financeira e o apoio para a mãe. Sua presença é sempre numa atenção passageira e na resolução de problemas logísticos do cotidiano.
É no motorista Hoke que Daisy encontra atenção e companhia.
Com o passar do tempo a professora aposentada Daisy já com 90 anos passa a enfrentar um quadro de demência senil e vemos, após um episódio de perda de memória e delírio a  sua internação numa clínica de idosos. 
De acordo com Barclay (1993),a demência é uma síndrome clínica de deterioração das funções corticais superiores, incluindo memória, pensamento, orientação, compreensão, cálculo, capacidade de aprendizagem, linguagem e julgamento ou discernimento. Ela ocorre com manutenção da consciência e com severidade suficiente para interferir nas funções sociais e ocupacionais do indivíduo. O termo deterioração implica a redução de habilidades previamente conhecidas e estabelecidas


De forma delicada o filme vai apresentando na rotina de Daisy, uma vida comunitária como fundamental para esta fase do ser humano. A demência tem assumido maior importância como problema de saúde pública devido ao aumento da população envelhecida em todo o mundo, particularmente na faixa etária acima dos 80 anos. Estudos tem sido realizados sobre o quanto a urbanização tem afetado esta rede de cuidado dos idosos; tendo inclusive surgido a profissão dos cuidadores para esta demanda:

 "Certamente existem evidências da quebra de responsabilidades tradicionais como conseqüência da urbanização. A maior influência da urbanização certamente é a transformação das estruturas familiares de famílias extensas em famílias nucleares, o que diminui a disponibilidade de parentes para cuidar dos mais velhos. Outra questão a se destacar é que muitas pessoas não querem ser dependentes de seus filhos adultos ou de outros membros da família. Esse fato muitas vezes gera a demora da própria família em constatar que precisa assumir a assistência ao seu parente idoso. Um cuidado que se apresenta de forma inadequada, ineficiente ou mesmo inexistente é observado em situações nas quais os membros da família não estão dispostos, estão despreparados ou sobrecarregados por essa responsabilidade "

O filme só aponta para esta problemática no final mas em sua construção narrativa percebemos o quanto as relações pessoais são importantes nesta rede de proteção social.

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